Wednesday, March 22, 2006

Conflitos de Interesses

Zero Hora: "Conflitos de interesses
ALOYZIO ACHUTTI/ Membro da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina

Conflitos - particularmente de interesses -, desde o nascimento há que enfrentá-los e aprender a gerenciá-los. Na medida em que nosso mundo se expande, em que a comunicação se desenvolve, quanto mais oportunidades de ter e de usufruir se nos oferecem, tanto mais apelos e decisões difíceis nos desafiam.
Para entender a complexidade do assunto é preciso examinar a semelhança da corrupção, não somente o lado do corrupto, mas também o papel do corruptor. Além dos conflitos naturais do quotidiano, a cultura na qual estamos imersos tem contribuído cada vez mais para aumentar tais situações, criando necessidades fictícias, aumentando as tentações reais e as fantasias.
Há quem diga que a medicina é uma profissão trágica porque encerra um permanente dilema, pois precisa acomodar três conjuntos de interesses que somente coincidem em área em geral muito restrita: interesses do paciente, da ciência e do próprio médico. A primazia tem que ser garantida ao paciente e cabe ao médico administrar o conflito.
Em geral, quando se discute o tema está se falando de pesquisa científica; da defesa, e discussão de controvérsias; e da prescrição médica. As tensões geradas pelo financiamento, incentivo e pressão gerencial da indústria e dos intermediários são tão grandes, que se adotou - para congressos e publicações - a norma, aparentemente saneadora, da declaração de potenciais conflitos. Na prática, entretanto, a declaração funciona às vezes como a transferência da responsabilidade (lavando as mãos) de quem está em conflito para quem vai receber a mensagem, não importam as potenciais confusões geradas e as dificuldades em separar o falso e duvidoso do verdadeiro ao interpretar as informações apresentadas...
Nem sempre o motivo do conflito é o dinheiro, muitas vezes é o poder, a vantagem política, a posição na hierarquia, o prazer, a própria vaidade pessoal.
Os conflitos se escondem atrás de muitas máscaras e pretextos que tentam justificá-los: paixão por uma causa ou projeto, defesa de princípios político-partidários, lobby, desenvolvimento científico e tecnológico, apoio a desenvolvimento artístico, confiança na família (nepotismo), propaganda e marketing etc. Não é suficiente e não adianta simplesmente declarar a existência potencial de conflito, nem alegar ignorância ou ausência de comprometimento. Existem ciladas naturais nas quais podem ficar enredados mesmo os de boa-fé.
Conflitos existem por toda parte e a solução não é simples. Qualquer decisão implica a satisfação de algum interesse em detrimento de outro, e para enfrentar dilemas os únicos remédios são: o respeito a princípios éticos, a transparência, a autenticidade e veracidade, o estabelecimento de prioridades e hierarquia de valores. De outra forma, mergulhamos na barbárie e não vale mais a pena cultuar a justiça, a verdade e a vida humana.

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